Ian Fleming

Nascido em 28 de maio de 1908, Ian Fleming deu vida ao agente secreto mais famoso do mundo: James Bond.

Ao longo dos anos, sua trajetória de vida, repleta de experiências únicas, moldou os elementos centrais das aventuras de 007, eternizando seu nome na literatura e no cinema.

Ian Lancaster Fleming, nascido em 28 de maio de 1908, cresceu em um clã matriarcal liderado por Evelyn Fleming. Além disso, ela controlava não apenas as carreiras de seus filhos, mas também suas vidas amorosas. Por sua vez, ele era filho do Major Valentine Fleming, morto em combate durante a Primeira Guerra Mundial.

Como James Bond, o autor estudou no tradicional Colégio Eton, complementando seus estudos na Escola Militar de Sandhurst. Mais tarde, enfastiado do jargão militar, cursou línguas nas Universidades de Munique e Genebra, com o intuito de ingressar na área diplomática.

Fleming, porém, obteve a sétima colocação na lista de aprovados para o Ministério. Naquele ano, porém, havia apenas cinco vagas. Por isso, para horror de Evelyn, o pai de 007 seguiu um ímpeto do coração e tornou-se jornalista. Embora odiasse a rotina, ele rapidamente prosperou na profissão. No início dos anos 1930, Ian Fleming já chefiava a sucursal da Reuters em Moscou (Rússia). Em seguida, em 1945, assumiu a editoria internacional dos Jornais Kemsley. A carreira literária se consolidou na década seguinte.

A criação de James Bond e o nascimento de 007

Fleming tinha 45 anos quando escreveu a primeira novela de Bond: Cassino Royale. Nas palavras do autor, a obra foi concebida como um “atenuante para o choque de ter se casado tão tarde”. Em 1952, Fleming despediu-se das relações fortuitas que marcaram sua juventude e desposou Anne Rothermere. Ela era ex-esposa do empresário de comunicações Lorde Northcliffe.

“Foi um passo dramático para um solteirão inveterado…Por isso, inventei Bond como forma de terapia”, disse mais tarde. Além disso, a crítica recebeu o livro com entusiasmo. Por exemplo, “Fleming mantém seus personagens e incidentes em constante movimento”, observou uma resenha publicada no suplemento literário do Times. Em seguida, a trama narrava o confronto entre o agente secreto 007 e o escroque Le Chiffre, colaborador da inteligência soviética. O prefixo Duplo-0 concedia a Bond “licença” para matar no cumprimento do dever.

“Quis apenas criar uma personalidade interessante, a quem aconteciam coisas extraordinárias, mas nunca pretendi transformá-lo em um exemplo ou em um monstro.”

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Ian Fleming

Cassino Royale não foi a primeira exploração ficcional romântica da espionagem: no início do século XX, William Le Queux e H. C. McNeile haviam tirado o fôlego dos leitores com as aventuras de Duckworth Drew e Bulldog Drummond, os mais reconhecíveis precursores de Bond. No entanto, a diferença era que Fleming possuía conhecimento de causa sobre o tema.

Durante a 2ª Guerra, o Serviço Secreto naval recrutou temporariamente Ian Fleming, que desempenhou funções burocráticas. Além disso, a leitura constante de dossiês de espiões britânicos e inimigos forneceu-lhe embasamento para forjar a imagem do herói. “Surgiu de repente”, comentou Fleming, na década de 1960. “Ali estava, um misto dos vários agentes e comandos que conheci…Contudo, embora represente uma mescla das qualidades que obervei naqueles homens, Bond é uma versão infinitamente romantizada do autêntico espião.”

A entrada no serviço secreto

A vivência de Ian Fleming no Serviço Secreto naval inspirou o código numérico de James Bond. Na verdade, sua atuação ficou restrita à chamada “Sala 39” do Almirantado. Por sua vez, o gabinete pertencia ao Diretor de Inteligência, Almirante John Godfrey, que inspirou o personagem “M”.

“No início da guerra, o prefixo Duplo-0 era utilizado em sinais e mensagens de cunho secreto, medida posteriormente abandonada por questões de segurança”, explicou o autor. “A fim de tornar o encargo de Bond mais interessante, criei a insígnia 007.”

O autor Ian Fleming

Menos excepcional foi a escolha do nome do personagem. Fleming simplesmente tomou-o de empréstimo do ornitólogo norte-americano James Bond. Além disso, o ornitólogo era autor da obra “Birds Of The West Indies” (Pássaros Das Indias Ocidentais).

O livro decorava o living de sua casa de férias na JamaicaGoldeneye. Por fim, Fleming adquiriu a propriedade em 1946 e escreveu ali quase todas as novelas de 007.

“O nome ia de encontro à minha decisão de tornar Bond verossímil”, justificou-se o autor. “Se repararem bem, é um nome insípido. Poderia ter-lhe dado, um nome pomposo, como Peregrine Carruthers, mas então estaria traindo meu propósito de torna-lo digno de crédito. Quis apenas criar uma personalidade interessante, a quem aconteciam coisas extraordinárias, mas nunca pretendi transformá-lo em um exemplo ou em um monstro.” 

O impacto de Cassino Royale

Curiosamente, após concluir o manuscrito de Cassino RoyaleIan Fleming relutou em oferecer o entrecho às editoras. A revelação de que havia escrito uma trama de espionagem só veio à tona por insistência de amigos. Por isso, eles o convenceram a procurar um editor e também o aconselharam a escrever outro romance. Segundo os amigos, se o primeiro fosse um fracasso, ele não teria coragem de produzir outro.

“Sentia-me envergonhado”, rememorou Fleming uma decada depois. “Tinha certeza de que, mesmo utilizando um pseudônimo qualquer, a horrível verdade de que eu escrevera aquele enredo adolescente se tornaria pública…apareceriam um ou dois tópicos nas colunas de fofocas, e depois desonra, desgraça, expulsão do país!”

Embora pareça melodramática, a apreensão de Fleming era genuína. Por exemplo, sua esposa Anne nunca aceitou a vereda “artística” tomada pelo marido. Além disso, boa parte dos esnobes que freqüentavam os meios elegantes londrinos do Pós-Guerra endossava essa opinião.

A publicação e a recepção da crítica

Entretanto, o teor folhetinesco de Cassino Royale não incomodou o editor Jonathan Cape, que decidiu publicá-lo em abril de 1953. A recepção favorável da imprensa também se deveu à condescendência dos amigos jornalistas de Fleming. Por isso, eles fizeram vista grossa aos “lapsos” narrativos da trama. Consequentemente, resultados mais expressivos surgiriam nas novelas seguintes, que definiram o clássico entrecho bondiano. Ainda assim, a obra tinha charme, apelo inegável e uma qualidade admirável em romances populares: era muito bem escrita. Além disso, a atenção de Fleming aos detalhes foi reconhecida até por gigantes do gênero. Entre eles estava Raymond Chandler:

“A narrativa de Fleming é vigorosa, rica, direta e viva. É uma forma de escrever que adapta-se maravilhosamente  às histórias em quadrinhos. Muitas vezes, desejei possuir os méritos de Ian (…) Fleming tinha a capacidade de ir a uma cidade em busca de ambientes para um livro e, em três dias, dominar todos os pormenores da cidade. Gravava tudo na memória e, ao escrever sobre o assunto, não cometia um erro sequer. (..) Ian possuia um cérebro jornalístico. Também fui jornalista, mas despediram-me. Raciocinava muito devagar. Fleming aprendia tudo com rapidez e precisão.”

“As Armas e As Garotas do 007” (Capítulo 9 – Água Gelada e Detetives)

A pesquisa por trás das aventuras

Na verdade, além da perícia em armazenar dados, Fleming devia o detalhismo de seus livros a contatos nos lugares certos. Como muitos jornalistas, o criador de James Bond mantinha amigos e conhecidos em vários campos do engenho humano. Por exemplo, entre eles estavam autoridades em armas, balística, diamantes e fissão nuclear. Além disso, havia auxiliares de pesquisa em diversos países.

Ao descrever a tentativa de roubo ao Fort Knox empreendida por Goldfinger, Fleming contou com a colaboração de especialistas norte-americanos em segurança. Em seguida, eles forneceram informações sobre o funcionamento da fortaleza de ouro. Muitas vezes, esses consultores faziam figurações nas novelas. O Major Boothroyd, por exemplo, mais tarde inspirou o personagem “Q” da série cinematográfica. Apesar da “camaradagem” com que foram redigidas, as críticas favoráveis a Cassino Royale realmente divisavam um sucesso. Como resultado, ele se consolidou na aventura seguinte.

A evolução dos romances de 007

Em Viva E Deixe Morrer (1954), o autor começou a adicionar elementos menos convencionais às aventuras de Bond. Além disso, eles refletiam sua paixão pelos enredos de Júlio VerneSax Rohmer e E. Phillips Oppenheim, repletos de personagens fantásticos. Por sua vez, Mr. Big era o novo antagonista de 007 e seguia os moldes de Robur e do Dr. Fu Manchu. Mais tarde, o Dr. No homenagearia esse tipo de personagem fantástico.

Aos poucos, a grandiloqüência e o absurdo tornaram-se recorrentes nas novelas. Por exemplo, em O Foguete Da Morte (editado em 1955), Bond frustrou um ataque nuclear a Londres. Já em Os Diamantes São Eternos (1956), combateu a maior quadrilha de contrabandistas de pedras preciosas do mundo.

Albert Broccoli, Sean Connery, Ian Fleming e Harry Satlzman

Foram as novelas editadas a partir de 1957, porém, que mais flertaram com a fantasia. Entre elas estavam Moscou Contra 007O Satânico Dr. No e Goldfinger. Chantagem Atômica apresentou, pela primeira vez, o arqui-inimigo de James Bond, Ernst Stavro Blofeld. Além disso, a fase incluiu À Serviço Secreto De Sua MajestadeSó Se Vive Duas Vezes e O Homem Da Pistola De Ouro.

Bond protagonizou doze romances. Um deles foi a obra experimental O Espião Que Me Amava, publicada sob pseudônimo em 1962. Além disso, 007 estrelou duas coletâneas de contos: Somente Para Seus Olhos e Octopussy.

O legado de Ian Fleming e o impacto cultural de James Bond

Os romances de Fleming tiveram um efeito regenerador sobre o moral inglês no início dos anos 1950. Naquele período, a Grã-Bretanha tentava reposicionar-se no cenário internacional. No entanto, a imagem da Inglaterra como nação colonizadora havia se deteriorado. Ainda assim, o país ingressava em uma era neoelizabethana. Assim, sob o comando de Winston Churchill, permitiu-se sonhar com um novo apogeu político.

Em uma esfera imaginária, Bond também reabilitou o conceito do Serviço Secreto inglês. A instituição havia sido arranhada pelo escândalo dos “espiões diplomatas” Donald Mclean e Guy Burgess. Além disso, durante anos, eles forneceram informações secretíssimas sobre os altos escalões britânicos aos russos. Apesar disso, Bond era refinado como Mclean e Burgess, mas visceralmente anticomunista.

Com o êxito das primeiras novelas, a série James Bond entrou em escala industrial de produção, à razão de um romance por ano. Desse modo, Fleming definia as bases das tramas em Londres e começava a redigi-las no início de suas férias anuais.

A rotina de escrita em Goldeneye

As páginas datilografadas em Goldeneye eram “esqueletos” dos livros finalizados. De volta a Londres, o autor as submetia à pesquisa de auxiliares. Depois, acrescentava “fatos e números”. Por fim, em Goldeneye, a rotina seguia um rígido cronograma. Nas palavras de Fleming:

Levanto-me com os passarinhos, o que significa à 07:30 horas, e vamos eu e minha mulher dar um mergulho no mar, antes do café. Não usamos trajes de banho, já que estamos completamente isolados. Depois, tomamos um café reforçado, geralmente com ovos mexidos, e em seguida sento-me ao sol por alguns instantes. Das 09:30 às 12:00 horas escrevo, sem que nada interfira em meu trabalho. Sento-me em minha sala e datilografo mil e quinhentas palavras seguidas, sem ler o que escrevi na véspera. Sou da opinião de que não se deve interromper a redação de uma narrativa rápida com muita introspecção e autocrítica. O essencial é escrever corridamente para não perder o ritmo da narrativa, deixando as correções para quando o livro estiver terminado. Ao concluir meu trabalho matinal, saio com meus óculos de mergulho e arpão pelos recifes e volto para um bom almoço seguido de um cochilo de uma ou duas horas. A seguir, outro mergulho e uma hora final de trabalho, das 16:00 às 17:00 horas, para completar duas mil palavras por dia. Após o jantar, jogo um pouco com minha mulher e vou cedo para a cama, adormecendo quase instantaneamente. A rotina prossegue por umas seis semanas e só quando o manuscrito está completo começo a fazer a revisão, reescrevendo certos trechos. Já nessa fase preocupo-me com palavras e frases, verificando a ortografia e os fatos.”

“As Armas e As Garotas do 007” (Capítulo 7 – Simenon e Fleming Debatem os Romances de Suspense)

Saúde e últimos anos

Tais palavras sugerem um homem metódico, adepto de hábitos salutares. Entretanto, o senso de programação de Fleming e seu entusiasmo por panoramas bucólicos não resumem a sua personalidade. Além disso, o autor fumava compulsivamente e apreciava bebidas fortes, fatores que corroboraram para o declínio de sua saúde.

Em 12 de agosto de 1964, aos 56 anos, Fleming faleceu de um ataque do coração. Suas últimas palavras aos enfermeiros do Hospital de Canterbury revelam a natureza paradoxalmente simples do criador de James Bond. Afinal, ele criou o mais rebuscado dos heróis de ação: “Sinto causar todo esse transtorno, pessoal.”

Os sucessores de Ian Fleming

Com o sucesso da série cinematográfica inspirada em seus livros, é natural que Fleming tenha ganhado uma dinastia de sucessores. Assim, eles perpetuaram sua obra nos anos seguintes. O primeiro a ressuscitar a saga de Bond foi Kingsley Amis. Além disso, Amis era autor do livro-ensaio “The James Bond Dossier”, editado por Jonathan Cape em 1965. Em 007 Contra Pequim, o herói enfrenta o Coronel Sun, uma espécie de Dr. No.

Resultados menos expressivos foram obtidos por outro sucessor da pena flemingianaJohn Gardner. Na verdade, seus Bonds publicados nas décadas de 1980 e 1990 assemelham-se mais aos filmes do que aos livros. Por exemplo, em Licença Renovada, primeiro título da série, Bond tenta impedir o milionário Anton Murik de resfriar simultaneamente várias usinas nucleares. O plano provocaria uma catástrofe ambiental de grandes proporções.

Raymond Benson e o espírito flemingiano

Outro especialista em 007 foi Raymond Benson, autor do compêndio “The James Bond Bedsíde Companion”. Além disso, ele assumiu a tarefa de perpetuar a saga de Fleming em tempos recentes. Embora a série de Benson seja mais fiel ao material original, seus romances padecem do mesmo “mal” das novelas anteriores. Mesmo assim, eles não possuem o toque flemingiano: o blend equilibrado de nacionalismo e sensacionalismo, modernismo e anacronismo.

De fato, um aspecto preponderante separa os Bonds literários neo-elizabethanos das obras de AmisGardner e Benson: seu espírito autobiográfico. Mais do que um produto da prodigiosa imaginação de Fleming, Bond era uma expressão superlativada de seu próprio criador. Além disso, Fleming era o homem que fumava sessenta cigarros por dia e cuja pressão sangüínea atingia picos de 160/90. Fleming era o hedonista irônico que odiava a rotina e que não acatava ordens médicas.

O jogador compulsivo, o aficionado por carros velozes e Martinis com Vodca. Em suma, Ian Lancaster Fleming, não Sean Connery , como o alardeava o cartaz promocional de Com 007 Só Se Vive Duas Vezes (1967) – era James Bond.

Trecho retirado do capítulo Ian Fleming – Licença Para Entreter, do livro “Sexo, Glamour & Balas” de Eduardo Torelli

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